Lab criativo promove reflexão sobre educação, tecnologia e resistência cultural indígena

#Arquivo_2015


A ONG Casa da Árvore começou suas atividades de 2015 em terras Tupinambá, embora ainda não demarcadas pelo governo e explorada por fazendeiros e empresários, como a maioria dos territórios de povos tradicionais brasileiros. Foram seis dias de convivência e quatro dias de atividades intensas com ativistas, educadores sociais, professores indígenas e lideranças da ONG Thydêwá, em Olivença, município de Ilhéus, região sul da Bahia. A Casa da Árvore foi convidada para compartilhar suas experiências no desenvolvimento colaborativo de práticas pedagógicas por meio do Lab Criativo de Educação e Cultura Digital, realizado entre 16 e 19 de janeiro.


Em meio a experimentações didáticas, tecnológicas, rituais e celebrações, o grupo formado por educadores Tupinambá, Pankararú, Pataxó, Potiguara e Xokó desenvolveu um conjunto de atividades a partir da exploração dos mapas digitais, das redes sociais e da produção de imagem e som com uso de dispositivos móveis. “Cada aula ou oficina desenvolvida pelo grupo foi construída a partir da experiência cultural e tecnológica dos participantes. O mais interessante foi perceber parte da luta e da resistência cultural desses povos presente nas intenções didáticas”, comentou Leila Dias, mediadora do Lab Criativo.


Práticas pedagógicas criativas


A partir do desafio de alfabetizar e desenvolver o gosto e habilidades para leitura entre crianças, jovens e adultos, na maioria das vezes em salas multiseriadas, um grupo de professores Tupinambás criaram uma sequência didática para produção de uma “radionovela” a partir do livro “Dois Irmãos no Mundo”, de Nhenety Kariri-Xocó. “Nós vamos usar o celular para ajudar os alunos produzirem sua radionovela, aproveitando os instrumentos e cânticos tradicionais, os sons do corpo e o uso de objetos para criar paisagens sonoras que faram eles olharem de uma maneira diferente para o livro”, destaca a professora Gilmara Tupinambá, uma das autoras da sequência didática.


A obra que inspirou a “radionovela” será lançada em breve em livro digital pela empresa social recém criada, Da Terra Produções, parceira da Thydêwá neste emprendimento. O presidente da Thydêwá, Sebastian Gerlic, destaca que “a inteligência coletiva surgida no Laboratório foi muito forte e ampliou a visão de muitos de nós participantes, nutrindo-nos com inspiração e ousadia, afirmando a força da união e a riqueza do diálogo intercultural”.


Os mapas digitais e outras ferramentas de geolocalização de informação digital foi o universo que levou um grupo de educadores sociais e lideranças da ONG Thydêwá a criarem um conjunto de três oficinas. A primeira é uma experiência de introdução ao mundo da cartografia digital e parte da experiência pessoal de localização dos participantes. Já a segunda explora a autoria cartográfica a partir da reflexão sobre ocupação de territórios tradicionais ao longo dos últimos 500 anos. A terceira oficina é uma tentativa de criar um mapa colaborativo para possibilitar o turismo cultural virtual em Olivença. "Na atividade que desenvolvemos encontramos uma oportunidade de aprofundar a relação afetiva que as pessoas têm com o espaço em que vivem, utilizando as ferramentas digitais para ressignificar seu olhar sobre o espaço. Além disso, aproveitamos para trazer à tona a discussão dos interesses que existem por trás dos mapas comerciais e a importância de se estabelecer limites do que pode ou não ser divulgado em prol da cultura", destacou a colaboradora da Thydêwá, Fernanda Martins.


Ainda durante o Lab Criativo foi desenvolvido a oficina Celufotografia, criada por um grupo de jovens de diversas etnias indígenas que participam de Pontos de Cultura Indígenas, além do professor Cláudio Monteiro. A atividade tem o objetivo de criar uma série de exposições fotográficas físicas e virtuais a partir do tema cultura indígena, e para isso explora a fotografia digital, os aplicativos de edição de imagens, o uso de materiais naturais para confecção de molduras e ambientes virtuais para ampliar o acesso às obras fotográficas. “Além do participante desenvolver novas habilidades tecnológicas, essa oficina vai chamar os anciões para a troca de informações, possibilitando o diálogo entre gerações”, recordou o professor Cláudio Monteiro.


“Foi muito interessante reconhecer parte do desafio da educação indígena traços da concepção de sobre educação e aprendizagem que inspiram a atuação da ONG Casa da Árvore, como o respeito à individualidade e tomada de decisão coletiva”, refletiu Aluísio Cavalcante, mediador do Lab Criativo.


Sobre a Thydêwá


A ONG Thydêwá promove a valorização da diversidade e o diálogo intercultural há mais de 12 anos. Com diversos projetos premiados; conheça: www.thydewa.org.


0 visualização0 comentário